domingo, 13 de junho de 2010

DIÁLOGO



A: Você é meu companheiro.

B: Hein?

A: Você é meu companheiro, eu disse.

B: O quê?

A: Eu disse que você é meu companheiro.

B: O que é que você quer dizer com isso?

A: Eu quero dizer que você é meu companheiro. Só isso.

B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.

A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico.

B: Não é disso que estou falando.

A: Você está falando do quê, então?

B: Eu estou falando disso que você falou agora.

A: Ah, sei. Que eu sou teu companheiro.

B: Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro.

A: Você também sente?

B: O quê?

A: Que você é meu companheiro?

B: Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.

A: Atrás do companheiro?

B: É.

A: Não.

B: Você não sente?

A: Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não?

B: Não. Não é isso. Não é assim.

A: Você não quer que seja isso assim?

B: Não é que eu não queira: é que não é.

A: Não me confunda, por favor, não me confunda. No começo era claro.

B: Agora não?

A: Agora sim. Você quer?

B: O quê?

A: Ser meu companheiro.

B: Ser teu companheiro?

A: É.

B: Companheiro?

A: Sim.

B: Eu não sei. Por favor, não me confunda. No começo era claro. Tem alguma coisa atrás, você não

vê?

A: Eu vejo. Eu quero.

B: O quê?

A: Que você seja meu companheiro.

B: Hein?

A: Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.

B: O quê?

A: Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.

B: Você disse?

A: Eu disse?

B: Não. Não foi assim: eu disse.

A: O quê?

B: Você é meu companheiro.

A: Hein?

(ad infinitum)


Retirado de "Morangos Mofados", de Caio Fernando Abreu.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Por John Lennon



Em uma de minhas andanças pela internet -não me lembro se em um perfil de orkut, comunidade ou google - me deparei com um texto muito interessante de John Lennon. Sabe aquele escrito que coloca em palavras tudo o que você já sabia, mas não tinha em mente de uma maneira organizada ou, pelo menos, escrita ? Então, é mais ou menos assim que eu vejo esse texto, que, cá entre nós, não traz novidade nenhuma, mas é sempre bom para nós dar uns "toques".

"Fizeram a gente acreditar que o amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos.
Não contaram pra nós que o amor não é acionado, nem chega com hora marcada.
Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade.
Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar naos costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo.
Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável.
Fizeram a gente acreditar numa formúla chamada "dois em um": duas pessoas pensando igual, agindo igual, que ra isso que funcionava.
Não nos contaram que isso tem nome: anulação.
Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relaçõa saudável.
Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos.
Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre haverá esse chinelo velho para um pé torto.
Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto.
Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados `a margilidade.
Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas.
Ah, tb não contaram que ninguém vai contar isso tudo pra gente, cada um vai ter que descobrir sózinho.
E ai, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém"
(John Lennon)

terça-feira, 16 de março de 2010

No dia do seu aniversário de noventa anos, um velhote resolve se deitar com nada mais nada menos que uma mocinha virgem - que exalava a pureza de nunca ter sido tocada. Uma dessas loucuras das que vem com a idade ou sei lá, mas foi isso que ele fez, ou melhor, o que não fez: o velho tem sim uma noite com a menina, mas nada de sexo. Ele se apaixona por ela, é como um amor platônico ... com muito afeto, mas tudo muito longe dá realidade. Tanto que ele prefere que a garota esteja dormindo em todos os encontros, como também nunca a acorda e pouco faz questão de saber seu nome.
A paixão dá sentido a vida do ancião. É "Delagadina" - nome que ele dá a menina - quem o inspira a partir de então a escrever verdadeiras cartas de amor nas crônicas do jornal para o qual o velho escrevia.

Não ! Isso não é uma resenha, resumo ou o que for. Eu só estava fazendo uma pequena introdução pra não ir direto ao ponto que são os fragmentos M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O-S que podem ser tirados do livro ! Eis aqui, entre muitos outros, os meus favoritos:

"Minha única explicação é que da mesma forma que os fatos reais são esquecidos, também alguns que nunca aconteceram podem estar na lembrança como se tivessem acontecido. (...) Eu a havia sentido tão perto durante a noite que sentia o rumor de seu respirar no quarto de dormir, e a pulsação de sua face em meu travesseiro. "

" Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimi-das, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco. Virei outro. Tratei de reler os clássicos que me mandaram ler na adolescência, e não aguentei. Mergulhei nas letras românticas que tanto repudiei quando minha mãe quis -me forçar a ler e gostar, e através delas tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não foram os amores felizes e sim os contrariados."

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Ciclos.



Uma vez eu disse pra
Kizia que um amigo nosso, na época em que nos conheceu e começou a namorar uma amiga nossa, estava passando por uma fase; talvez uma espécie de ciclo, em que tudo acontecia, as coisas mudavam e, de uma hora para outra, acabava e daí se iniciava outro ciclo.

Esse amigo era novo no emprego (na época em que nos conhecemos ), conheceu gente nova, e teve muitas experiências diferentes enquanto trabalhava. Era tudo um pouco incomum, inesperado e diferente. Pronto. Até que, pouco tempo depois, ele foi mandado embora do emprego ... seu ciclo acabou.

Várias pessoas passam por nossas vidas dessa maneira: elas chegam do nada, e da mesma forma partem. O motivo pode ser viajem, mudança, insatisfação, bônus, falecimento, imprevisto, necessidade ou até mesmo uma perda de emprego.

Foi disso que eu disse a Kizia que eu imediatamente me lembre hoje de madrugada ... é que eu reconheci que, mas uma fez, o ciclo de alguém terminou. Eu fui uma das pessoas que fez parte do ciclo dessa pessoa; é ... eu estava lá, era como uma espécie de atriz principal (tipo mocinha da história), ou talvez, no mínimo, uma atriz coadjuvante.

Ciclos são assim. Podem começar de maneira imprevisível ... mas também é de maneira imprevisível que terminam. Tudo tem seu tempo, sua duração, seu momento ... é assim que eles funcionam. Se mudança é a lei da vida, então os ciclos são verdadeiras medidas provisórias: não são discutidos no congresso, é tudo muito rápido e é muito rápido também que perde efeito, e não depende da vontade geral; entretanto, a diferença mais marcante entre os ciclos e as medidas provisórias é que, ao contrário destas, aqueles podem disciplinar sobre qualquer matéria. Isto é, não a vedação quanto ao campo da vida da pessoa em que poderá haver ciclo: pode ser no intimo, amoroso, social, profissional ou religioso. Para os ciclos também não há nada polêmico ou intocável demais a ponto de dele não poder fazer parte.

A gente pode se dar conta de que foi só um ciclo, quando ele chaga ou fim. Dessa vez, confesso que foi um pouco mais doloroso do que eu poderia prever. Se é que daria mesmo pra prever, afinal, foi só um ciclo.